na beira do rio absorvido
e me mantinha entretido
no alto do sofá de napa
de onde eu só via nada
e funcionava de madrugada
e a paisagem vibrava com estranho magnetismo .
de tudo ser tragado pelo poço ;
sabia, por mais que vigiasse
o sono me pegaria, e de repente :
o poço puxando meus pés
e eu agarrando mesa , bufê , parede
do quarto pra escada pra sala pro reino
(tudo voltava ao lugar )
passava ao lado
e perguntava de soslaio :
– por que está sempre tombado?
o que ela não iria entender .
*
O medo veio muito depois
e pai e irmãos , sabia
e o nome medo , o medo .
foi fácil dizer : lá não havia alegria .
no dia em que fomos embora daquela casa .
*
e meu pai me ajudava a subir
o cavalo me olhou com um olho
do meu jeito de escalar as malas
esperando aquilo que chamava mudança
o ar moveu-se e o vento
ardia meu rosto
e varria-me por dentro ;
o primeiro sentimento que eu tinha
Ao fim da travessia
conheci o medo
na imagem que eu vi
de meu pai e minha mãe rindo de mim .
*
O medo paira, gira , some
se quiser pego ...
Aquela pessoa mãe antes já era
e os irmãos que não eram, eram
e a formiga que não andava, andava
e o tempo que não passava, passava.
e a parte que me cabe no Teu latifúndio .
Se hoje quando cheguei em casa
foi difícil abrir a porta
e entrar na sala vazia
e subir as escadas com as pernas duras
sei que o medo é o mesmo que no começo eu não sentia
resta-me agora destilar purezas
dos nomes trás-os-montes de nadas .
Desço as escadas
vejo minha filha dormindo
e procuro amar as perguntas que me dividem:
*
O camelo vem
mansinho
aproxima-se
e seu olho agora
é só um olho egípcio
girando em órbita
(de quem ?
de mim ... de quem ?)
de mim .
está aqui , acolá
ri
Vai voltar ...
(em torno de quem ?...)
vai...
se
es-
vai...

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