Ternura


Mãe e a filha nuas
duas vezes nuas
pela simplicidade do desenho
feito com lápis comum.

Uma está para a outra
e nada mais interessa:
isso é o que significa
o vasto branco do papel.

A mãe (jovem, moderna, amiga)
ajoelha-se no ar
estica seus braços
e segura os braços duros da menina.

Que fica assim parada
em , como uma boneca
ou como toda criança, sem graça
ao receber carinho.

E a menina pisa no mesmo nada
mas um pouco acima, daquele ar
que sustenta os joelhos da mãe
-- então parece que flutua.

É por isso que a mãe lhe segura?
ou quer parar o tempo
olhando fixamente aqueles olhos
que jamais serão os mesmos?

E o que ela diz nesse momento?
Linda, querida, amor etc.
mas seu corpo nu e cru
fala outra coisa.

Obviamente sobre as diferenças
de uma menina e uma mulher
mas fala sobretudo aquilo que cala
a poiésis e o designo de um corpo.

(Se pudesse ser dito e se soubesse dizer
quem escreve estas palavras não o faria
pelo risco de se intrometer
na intimidade das duas.)

Curioso é que a autora do desenho
(que não gosta desse texto)
não é mulher como a mãe
nem tão menina como a filha.

Ela desenha a ternura
desde um ponto equidistante
de uma e de outra.
Constata ou carece de alguma coisa.

Não sei se sonha com o que foi
ou deseja que assim seja no futuro
ou expressa exatamente o que não foi
ou o que é, mesmo sem antes ter sido.




Óleo (40x30 cm)

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