Didi


Dói a alma deste trouxa pai de uma menina
Exilado do mundo onde ela caminha...

Homônimo meu,
Gepeto fez um filho de fantasia e pediu a Deus
Que o tornasse verdadeiro, não deu outra:
Um espírito de pau humano tão mundano
Quanto minha filha roda viva nesse parque prolixo
Esquizofrênico e promíscuo em seus vácuos
De luzes, ilusões, velocidades, estandartes
Que devoram qualquer espírito de uma vida de verdade...

Homônimo meu,
Josef K. quis desmascarar o mundo, se fudeu
E mereceu seu veredicto, eu não: renuncio,
Fica o dito pelo não dito, e ainda digo
O céu din-gon-bel sempre aceso é bonito
E a terra sem sombras de dúvidas é mais bonita
E do alto do meu monte de oliveiras assisto
Minha filha (suave morena) correndo
Entre os achados e perdidos do mundo
Mas do mundo mundo
Não desse meu mundo atrás do mundo,
Que para ela não existe esse meu
Onde divago literalmente por fora
Velho trouxa louco ímpio
Fabricante de verdades existencialistas
Vendidas em frasquinhos de porta em porta:
"Ei dona, tua voz não é esta
Está mudada
Teus seios, tua boca, tua coxa peluda
Tudo em ti me leva a crer
Que tu não és a coisa tua..."
Mas donas são naturalmente delas mesmas
Assim como minha filha na cara a cara
Enquanto eu vejo lobo na cara do mundo
Pelo que sou aquele tipo de solitário
Prepotente, réu confesso, inocente inútil
E ainda solto por no mundo mundo...

Mas não tão
Não tão quanto penso que sou pelo que sinto
Agora, nesse poema
Pois quando ela passa por mim cantando uma canção
E a atenção com que para pra ouvir este escaravelho
E o salva da baleia
Fictícia para ela, para mim tão verdadeira...
Tão gelado o seu ventre...
Tão fugaz o amigo Cleo...
Gepeto procurando o filho perdido
Que o salva do mundo cruel.




Guache (29,5x21 cm)

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