Banquete Familiar


O cão sentiu o que senti:
o cheiro daquela mulher.
Um cara veio e beijou
minha bochecha; faltava
uma peça na minha cabeça...

Afeto sincero, cheio de graça.
A bebida é que enchia
o copo da dúvida: alegria
ou, acabada a feitiçaria,
a culpa seria o feiticeiro?

Na dúvida. O que falei? Mais.
E o tom, altura, riso, gesto
opinião e piada fora de hora
tudo agora ansiava por ser revisto
pois notava farpas no improviso.

(Peso. 300, 400 gramas a mais
na cabeça. Preciso ficar sozinho.
Entro no banheiro e digo digo digo
pra mim: corta o cordão do umbigo
e cala a boca desse ventríloquo)

(Peso: palavrinhas, bestialidades.
De novo pensa, ela pensa:
por que tanto brio? – vaidade
curtindo um caráter sombrio
como um busto de cobre na dispensa).

E aquelas nisseis enchendo o salão
de graça, samba e cio. Pedaço de pão
atirei (caiu) no rosto do meu irmão.
Desde então me penitencio – por isso
escrevo essa coisa anos a fio.

Vejo: estão todos bem entre si
e o mundo me chamando pra fora,
o mundo: como um anjo nessa hora
querendo me resgatar do exíguo
exílio da minha alma.

Passa tempo, passa boiada
e aquela mãe tira o filho pra dançar;
dizem que ela tem problemas com o filho
dizem que ele tem problemas em geral
mas a dança é genial!

Abraço a minha. Meu pai vai.
Voltará para o ano?
Não. Está indo, foi, não volta.
Como é ser um homem?
Parece que Deus foi embora.





Nanquim e papel colado (33x21,5 cm)


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