Estranho Banquete



Quando então aqui começa

(sempre a mesma peça
a mesma taça
a mesma graça)
o ritual da confraternidade.

Banquete teve início
na mais longínqua antigüidade
teatro ambíguo de costumes
onde homens e mulheres
gozam de fina iniquidade.

Toca a campainha
anuncia-se primeira dama!
Cavalheiros criam tramas
destacando a mais nova firula
da revelha modernidade.

Ama-se de verdade
(estranha forma de união)
alguém traz a novidade
vem de ontem à tarde:
narração.

Noves-fora nada, alguém
precisava chamar a atenção;
rio também, tu rias, ele ria
e isto posto: outra piada
de mau gosto.

a boca que não pára
tudo entra e se vomita
comida proparoxítona
em vaivém até os confins
das entranhas desse jardim.

Ali estão um mais dois três
vasculhando velhas vaidades
até as últimas conseqüências;
como sempre vale
a própria experiência.

Assim o banquete vai ultrapassando
estranhos perigos de polaridades.
Mas estúpido (pensa o estúpido)
é aquele que em tudo
correntes de psico-dramaticidades.

Gincanas passam, crianças, músicas
curiosa vida se reproduz
-- campainha introduz nova dama
e o que ela diz? cochicham
bocas de chafariz.

Farto usufruto do alheio
cujo quem se fode é tempero
de conversa furada ao espeto
mas tudo com muito cuidado
para não ferir o coitado.

E o cara que , revê:
o problema não são eles
mas você, para quem aqueles
viram os olhos e perguntam:
como está você?

(Minha voz não é esta,
está mudada; meu jeito,
meu peito, minha boca peluda,
tudo isso me leva a crer
que o lobo sou eu, não a puta).

Mas todos são bons, consortes
o estranho é da corte
e faz papel de palhaço
quando tropeça nos destroços
que deixam espalhados.

Então, ich! Se machuca
inspira cuidadosbobagem
melhor ir embora, não não
tomar sais de fruta, não não
calma! vai ficar bem.

O café servido em boa hora
agora segura a digestão.
O sono acaba com a graça
e a ressaca prefigura
uma noite de amargura.

Nada do que quem viu
foi visto, nada, nada existiu.
Nem esses rostos opacos
despedindo-se afetuosos
com sorrisos surripiados.

A explosão será em casa
junto à bem amada
junto ao corpo do marido
junto à filha da mãe
junto à mãe do filho.

Uma D.Maria rabugenta
sempre fecha a porta, obrigado;
pobre de quem sente saudade
de não haver
outra possibilidade.




Nanquim e papel colado (31,5 x21,5 cm)

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