Poemão


Não!
Chuva não!
A noite foi boa
a conversa à toa
o sonho terrível
eu ando sensível
mas chuva, impossível!

Chove, e eu dizia:
use o verbo chover
use os tempos da chuva
o substantivo chuva
o plural, chuvas
o som, ch’...
o alívio, ...’uva.

Nascer é fácil
quero ver renascer
sem pai sem mãe sem cabeça;
perder o cabaço
no poço do cagaço
e tudo começar de novo.
Um ovo, uma ova!

Quis tocar com as mãos
uma vez, não
não sabe: a coisa.
Escrever não consigo
sertão maligno.
Você não entende, não entendo
o que eu digo.

Pomba preta no telhado.
Antena.
rendado.
Pura expressão
o que seria
(para mim)
o que seria?

Olho bruto.
Olho culto.
Olho hindu.
Olho urutu.
Olho guru
Olho cru.
Olho nu.

Sobre a ponte um camelô anuncia:
vem o chinês com um cetro em cima.
Era o chinês com o cetro em cima.
É o chinês com o cetro em cima.
Fecho os olhos: é o chinês.
Abro os olhos: era.
Fecho os olhos.

A pobreza do encanto
a ilusão do que reluz;
nada resplandece
nada é translúcido
e basta de prefixos;
o canto, a luz
e o lúcido.

Falei como Fernando Pessoa
falamos dele na conversa.
A conversa foi boa
à toa, descomplexa
mesmo aquela do círculo
cujo raio era o cúmulo
de pi infinito.

Se isso fosse poesia
eu diria:
também pudera
o tempo da arara
o mais-que-perfeito;
a dor, a flora, o amado
a rima, o ritmo, o contratempo.

E a ira, a gana, a tara
como fica?
Uma criança grita, cristalizará.
Ninguém escuta a hora, haverá.
De repente ecoa, carcará.
Jou, , jará
agouro, agora, gorará.

Quando então toca a campainha:
é a morte
o vexame a galope.
Digo a ela: podes me levar
mas me trarás de volta
pois acertaste o endereço
mas erraste a hora.

("Aquele valente medieval...
por instantes sei do poeta...
sou poeta nessa noite tolda
sou quem-anda pelas florestas..."
Foi o que escrevi
debaixo daquela lua
na bruxa que pariu...

"Dez horas da noite
na rua deserta
a preta mercando
parece um lamento...
Ô acarajé ecoô
ora iê-iê-ô
vem benzê, ehn...?"

O que lamenta a preta,
o que deserta a rua?
Que noite canta essa canção
que todos ouvem certos
que todos testemunham
e que distingue essa noite das noites
numa preta escura?

Teta pura
carne dura polida
de preta é mais bonita   
no silêncio desse canto
num canto de rua...
“Parece um lamento
unm, unm, unm...”

Lembrança não é bananeira
mãe nação: parteira
pai patrão: porteira
meu sertão: veredas.
Toda dor é passageira
desde a partida
até a derradeira.

O que é isso, José?
Você eu mesmo, José!
Eu você precisamos dormir.
A chuva acabou, o poema acabou
o que mais, José?
Nunca tinha escrito meu nome
como agora.

José sou eu
José aflito
José-josé bendito
não como esses Josés de poemas e canções
estereótipos de homem comum.
Josés assim são incomuns.
Eu sou o único comum.

Filha, vem .
Você está bonita.
Quantos anos você tem?
Você conhece seu pai?
Eu também.
Agora deixe o papai trabalhar
e feche a porta.

Deu medo.
Deu muito.
Deus medos.
Olhei pra lua, era um poeta.
A lua desceu, era o demo.
Foi no ano de setenta e sete
não me perguntem como.

Escrevia o ingênuo:
"Não sou poeta nessa noite tolda
sou um ratinho escrivão
desta toda imensidão
sou um cambaleante
navegante desses espaços
muito maior que eu possa..."

Depois disso não deu.
Depois disso:
morreu. Depois
durou.
Duro depois.
Depois não era.
Depois, foi engano.

Por isso, cuidado ao olhar a lua
com esse olhar de poeta, olhar nu.
Nu e nu, é cru
cru é cru, é cruel
quem crê crê, é fiel
e a é o fio, desafio
que eu fiz, fiei, fio e confio.

Ei mãe, minha massa
what's happenning with your children?
Estranho stranger
"Strange  Fruit".
Corpo de ferrugem ruge
sangue que não corre, ruge
mas um dia todo o dia o sol ressurge.

Quem é a dona destes pares? São teus.
De quem são estes trapos? Teus.
E estes troços, estes troncos, estes braços?
Teus.
E estes olhos, boca, e a porra destas palavras?
Tuas.
Então leva.

Tem mais um detalhe:
não adianta raça no futebol
nem emoção na poesia
nem paixão no amor
nem jogar tinta na tela
nem soltar a voz no microfone
nem a franga no palco.

Chorar sim
mas chorar sem
chorar sal
chorar como vem
vão.
Chorar como chuva
num chorão.

Poemão:
essa língua não é minha
anda solta, à-toa
a  procura de ecos perdidos
no templo da boca;
voz vazia de matéria
ou vasilha da coisa oca.

Diz agora baixinho:
que beleza a natureza
como vem esse verão
como dói essa vida
ou melhor, como castiga
esse ano que passa...
psiu...

Como o vento desenha
a ordem na areia
como a areia aceita
as patas do animal
como a onda apaga
a ordem e as pegadas:
a vida é superficial.





Nenhum comentário: