UMA COISA SÓ
À minha filha ,
a única .
1 O Nascimento
2 Nascimento II
3 Nascimento III
4 Arábia (Uma História do Tesouro da Juventude )
5 Genealogia
6 Pureza , Solidão
7 Desencanto
8 Espera
9 Perseverança
10 Outra Noite
11 Vulcão
12 Época de Colheita
13 Dezenove Anos
14 A Jovem
15 Jovem Sábio
16 A Carta
17 A Batalha
18 O Destino
19 A Canção da Era
20 Meritíssimo Já-era
21 Poemão
22 Fruta-pão
23 Oração
24 Vou Embora
25 Deixe-me – Longe de Você
26 Frivolidades
27 Didi
28 Banquete Familiar
29 Estranho Banquete
30 Riviera
31 Glória ao Pai
32 Entre o Índigo e o Azul
33 Um Vazio no Vazio
34 Velho
35 Só o Velho
36 Alma Vaga
37 Última Visita
38 Modigliane
39 O Pintor e a Mulher
40 Em Mauá
41 Ternura
42 Eu e Ela
43 Areia
44 Nos Odres
45 Corpo
46 O Coração da Pedra
47 Três Cascas
48 Resposta
49 Posfácio
Trecho de uma
(...) Ao ler a última versão do seu livro , recordo o que me impressionou em muitos dos poemas , quando os lia individualmente à medida que você os escrevia e me enviava: cada um deles já formava um todo , uma coisa só . E em quase todos havia um traço admirável de seu estilo , esse impulso combativo , impulso de verdade , o mesmo que o faz revolucionar sua casa para achar uma agulha , como você disse, e que imprime à sua experiência , à matéria verbal , uma transformação ininterrupta . Eu já havia assinalado essas transformações depois de ler a primeira versão de "Resposta ". Lembra o que escrevi então ?
"Resposta não me parece um poema formalmente bem acabado , mas sem dúvida é um de seus grandes poemas , grande no sentido de força , de desafio , como foi o Poemão. (...) A idéia essencial é a das transformações: o perigo na estrada , o vento que muda um percurso, a percepção alterada do gosto da pinga , da folha de quaresmeira . Você diz isso magnificamente nestes versos : 'Preciso ver as marcas do tempo nas coisas / e uma espécie de alegria brota em mim / quando posso observar o paradoxo das transformações / e as confusões do homem para nomear / a matéria alterada'." E vejo agora , examinando a última versão do livro , que mesmo nesses versos você fez novas alterações.
O primeiro movimento é formado pelos "Nascimentos" (I, II, III), "Arábia" e "Pureza , solidão ". Nesse conjunto , "Genealogia " me parece deslocado pelo tom e pela forma breve do poema . Acho que poderia figurar noutra parte (na abertura do segundo movimento que começa com "Desencanto ") ou ser simplesmente eliminado.
O segundo é um pouco mais difícil de definir e talvez seja só um desdobramento modulado e mais variado das questões e dos traumas muito condensados no primeiro . Inclui "Desencanto ", "Espera ", "Outra noite ", "Vulcão ", "Transe " e "O Bicho " (observe que textos em prosa como esse servem para marcar transições ).
"Época de colheita " inicia claramente um terceiro movimento que se prolonga em "Dezenove anos ", "A Jovem " (que hoje reconheço que diz bem e no lugar certo ), "O jovem sábio ", "A Carta " e, talvez aqui , o recém-incluído "O Destino ", todos esses com características de pinceladas e de antecipações .
"No caminho " é a retomada de um tipo de enunciação forte que marca , a meu ver , o começo do quarto movimento . Mas o poema seguinte , "A Batalha ", apesar desse tom , tem algo de redundante que eu não gosto (como poema ele é fraco , isso já comentei uma vez com você ). "A canção da era " também não me parece corresponder muito bem a esse movimento , que prossegue mesmo , e com força , em "Meritíssimo já-era", 'Poemão" e "Fruta-pão ".
"A Companheira " situa-se justamente no meio do livro e por muitos motivos vejo esse texto como um eixo em torno do qual todos os outros giram.
O quinto movimento é um recomeço a partir de "Vou embora ", solilóquio conciso , delicioso . "Deixe-me", "Dia limpo ", "Didi", "Banquete familiar " e "Riviera" são poemas que retomam questões pessoais e familiares , mas deixam transparecer um certo distanciamento na autoanálise que os anteriores não tinham.
"Glória ao pai " marca uma nova inflexão e um sexto movimento , seguido por "Entre o azul e o verde ", "Um vazio no vazio ", "Tabela periódica ", "Velho " (uma sugestão : repensar o título desse poema ), "Só o velho " e "Alma vaga ".
"A mulher " inaugura muito tematicamente um sétimo movimento que prossegue em "Modigliani", "O pintor e a mulher ", "Em Mauá", "Ternura " e se encerra com "Eu e ela " ("Areia ", em minha opinião , deve ser eliminado: é um pouco forçado como poema e não está bem colocado na seqüência ).
O último movimento , enfim , comporta uma espécie de depuração ou de síntese em "Corpo " e "Coração da pedra ", e duas maravilhosas demonstrações de sua poética em "Três cascas " e "Resposta ".
Pode haver um pouco de artificialismo nesse esquema , mas no geral penso que é bastante consistente. Se concordar , resta a questão de saber se deve ou não haver alguma espécie de marca separando os movimentos (página em branco , sinal , numeração...).
Responda dizendo o que achou desses comentários . (...)
Paulo Neves
Adendo
Passaram-se os anos e Uma coisa só sofreu novas transformações, como a confirmar o que eu disse acima: saíram os textos em prosa, dois poemas foram cortados, três novos entraram, houve pequenas mudanças no título ou no texto de alguns deles. Mas a estrutura se manteve intacta, se é possível falar de estrutura diante desse magma, dessa incandescência verbal e poética que o passar dos anos, e a passagem do livro em papel à tela do computador, não extingue.
Paulo Neves, março de 2011.
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