UMA COISA


À minha filha,
a única.

Índice

Trecho de uma correspondência - Paulo Neves

1          O Nascimento
2         Nascimento II
3          Nascimento III
4         Arábia (Uma História do Tesouro da Juventude)
5          Genealogia
6         Pureza, Solidão
7          Desencanto
8         Espera
9         Perseverança
10        Outra Noite
11        Vulcão
12        Época de Colheita
13        Dezenove Anos
14        A Jovem
15        Jovem Sábio
16        A Carta
17        A Batalha
18        O Destino
19        A Canção da Era
20       Meritíssimo Já-era
21        Poemão
22       Fruta-pão
23       Oração
24       Vou Embora
25       Deixe-me – Longe de Você
26       Frivolidades
27       Didi
28       Banquete Familiar
29       Estranho Banquete
30       Riviera
31        Glória ao Pai
32       Entre o Índigo e o Azul
33       Um Vazio no Vazio
34       Velho
35       o Velho
36       Alma Vaga
37       Última Visita
38       Modigliane
39       O Pintor e a Mulher
40       Em Mauá
41        Ternura
42       Eu e Ela
43       Areia
44       Nos Odres
45       Corpo
46       O Coração da Pedra
47       Três Cascas
48       Resposta
49       Posfácio




Trecho de uma Correspondência


(...) Ao ler a última versão do seu livro, recordo o que me impressionou em muitos dos poemas, quando os lia individualmente à medida que você os escrevia e me enviava: cada um deles formava um todo, uma coisa . E em quase todos havia um traço admirável de seu estilo, esse impulso combativo, impulso de verdade, o mesmo que o faz revolucionar sua casa para achar uma agulha, como você disse, e que imprime à sua experiência, à matéria verbal, uma transformação ininterrupta. Eu havia assinalado essas transformações depois de ler a primeira versão de "Resposta". Lembra o que escrevi então?

"Resposta não me parece um poema formalmente bem acabado, mas sem dúvida é um de seus grandes poemas, grande no sentido de força, de desafio, como foi o Poemão. (...) A idéia essencial é a das transformações: o perigo na estrada, o vento que muda um percurso, a percepção alterada do gosto da pinga, da folha de quaresmeira. Você diz isso magnificamente nestes versos: 'Preciso ver as marcas do tempo nas coisas / e uma espécie de alegria brota em mim / quando posso observar o paradoxo das transformações / e as confusões do homem para nomear / a matéria alterada'." E vejo agora, examinando a última versão do livro, que mesmo nesses versos você fez novas alterações.

Mas fico pensando que impressão terá quem vier a tomar contato com seus poemas em conjunto, de uma vez , sem o privilégio que tive de os ir penetrando e compreendendo aos poucos, cada um, a cada nova leitura, e a seqüência que eles formam. Pois hoje me parece muito claro quemovimentos bem marcados, mudanças de inflexão no modo de apresentar os temas, que ora se agrupam polifonicamente, ora retornam com variações como numa sinfonia. Gostaria de mostrar como vejo esses movimentos para saber o que você acha de algumas pequenas modificações que proponho. Veja:

O primeiro movimento é formado pelos "Nascimentos" (I, II, III), "Arábia" e "Pureza, solidão". Nesse conjunto, "Genealogia" me parece deslocado pelo tom e pela forma breve do poema. Acho que poderia figurar noutra parte (na abertura do segundo movimento que começa com "Desencanto") ou ser simplesmente eliminado.

O segundo é um pouco mais difícil de definir e talvez seja um desdobramento modulado e mais variado das questões e dos traumas muito condensados no primeiro. Inclui "Desencanto", "Espera", "Outra noite", "Vulcão", "Transe" e "O Bicho" (observe que textos em prosa como esse servem para marcar transições).

"Época de colheita" inicia claramente um terceiro movimento que se prolonga em "Dezenove anos", "A Jovem" (que hoje reconheço que diz bem e no lugar certo), "O jovem sábio", "A Carta" e, talvez aqui, o recém-incluído "O Destino", todos esses com características de pinceladas e de antecipações.

"No caminho" é a retomada de um tipo de enunciação forte que marca, a meu ver, o começo do quarto movimento. Mas o poema seguinte, "A Batalha", apesar desse tom, tem algo de redundante que eu não gosto (como poema ele é fraco, isso comentei uma vez com você). "A canção da era" também não me parece corresponder muito bem a esse movimento, que prossegue mesmo, e com força, em "Meritíssimo já-era", 'Poemão" e "Fruta-pão".

"A Companheira" situa-se justamente no meio do livro e por muitos motivos vejo esse texto como um eixo em torno do qual todos os outros giram.

O quinto movimento é um recomeço a partir de "Vou embora", solilóquio conciso, delicioso. "Deixe-me", "Dia limpo", "Didi", "Banquete familiar" e "Riviera" são poemas que retomam questões pessoais e familiares, mas deixam transparecer um certo distanciamento na autoanálise que os anteriores não tinham.

"Glória ao pai" marca uma nova inflexão e um sexto movimento, seguido por "Entre o azul e o verde", "Um vazio no vazio", "Tabela periódica", "Velho" (uma sugestão: repensar o título desse poema), " o velho" e "Alma vaga".

"A mulher" inaugura muito tematicamente um sétimo movimento que prossegue em "Modigliani", "O pintor e a mulher", "Em Mauá", "Ternura" e se encerra com "Eu e ela" ("Areia", em minha opinião, deve ser eliminado: é um pouco forçado como poema e não está bem colocado na seqüência).

O último movimento, enfim, comporta uma espécie de depuração ou de síntese em "Corpo" e "Coração da pedra", e duas maravilhosas demonstrações de sua poética em "Três cascas" e "Resposta".

Pode haver um pouco de artificialismo nesse esquema, mas no geral penso que é bastante consistente. Se concordar, resta a questão de saber se deve ou não haver alguma espécie de marca separando os movimentos (página em branco, sinal, numeração...).

Responda dizendo o que achou desses comentários. (...)

                                                                                                         Paulo Neves

Adendo

Passaram-se os anos e Uma coisa só sofreu novas transformações, como a confirmar o que eu disse acima: saíram os textos em prosa, dois poemas foram cortados, três novos entraram, houve pequenas mudanças no título ou no texto de alguns deles. Mas a estrutura se manteve intacta, se é possível falar de estrutura diante desse magma, dessa incandescência verbal e poética que o passar dos anos, e a passagem do livro em papel à tela do computador, não extingue.

Paulo Neves, março de 2011.



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