Três Cascas


Poesia não muda de tema
sempre o mesmo mar e o pequeno grão de areia
e o céu o sol o vento e o rio que passa
e a flor efêmera e a lua cíclica,
metáforas que expressam mais a retórica
que uma experiência individual contemplativa.

E a natureza é tão vasta e vertiginosa
que nesse pedaço de praia velha
encontro três pequenas obras
que hoje me parecem mais prodigiosas
que o próprio mar:
a casca do coco, a casca do amendoim e a casca da laranja.

Porque o grão de areia e o mar são mais poéticos?
Talvez um grão nos fale da unidade ínfima
e o mar, de um íntimo infinito
– grandezas com que se mede a vaidade do homem –
e as cascas não inspirem metáforas nobres
por serem uma classe de natureza pobre
meras embalagens
como se o coco sem água
o amendoim sem amendoim
e a laranja sem suco
perdessem a razão de existir
e até mesmo sua condição natural.

Ninguém quer a beleza
a graça, a leveza, a ordem, o movimento
dessas cascas
(penso que se caminha pela praia
com as pernas
ou com a cabeça
ou com os olhos).
Ninguém dá valor aos ocos.

*

O mar recua, a casca do coco dá duas, três voltas
e para, chique
no meio do tapete brilhante
como uma escultura moderna
disposta no chão elegante de uma galeria.
Um coco se difere do coco
pelas arestas hexagonais com que foi lapidado
abstrato
mas um abstrato com significado
pois no topo abre-se um olho caolho
cujo olhar cego para o mundo
chupa a mim, a praia e o mundo todo
e tudo cabe em seu buraco negro
mais negro ainda pela intensidade do sol.

Adiante encontro pequenos sarcófagos
quase soterrados na areia
e com pincel de arqueólogo
limpo esse sítio mais mundano que histórico
até recuperar todo o grupo.
Reparo que os amendoins mantêm entre si uma relação proporcional
(são sempre um, dois, três ou quatro amendoins)
e suas cascas assim espalhadas, contíguas
sugerem a existência de um código
um possível alfabeto oracular;
lançadas na areia pelo gesto do homem
transmudadas em seguida pelo gesto do mar
restando só um contratempo de ondas
para se decifrar.

Finalmente, no ocaso da marola
lá vem a desinibida casca da laranja
girando em si mesma como uma embarcação futurista
até se encalhar a meus pés
com o glamour de uma caravela.
Pode ser que seja só bela
essa circunferência perfeita sobre meia esfera – já basta;
mas observando o seu bagaço
que parece mais um esqueleto
vejo que carrega consigo um segredo
de alguma alquimia essencial:
estrutura, areia, água e sal.
As algas em algumas
cobrindo as cascas como heras
dão a elas o aspecto de velhas
e de fato são:
não flores vivas
mas antepassadas antecipações.


Bico de pena (29,5x21 cm)

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